quinta-feira, 15 de julho de 2021

"Rejubilas: Fartura..."


Rejubilas: Fartura da colheita
após o mudo tempo de uma espera
em que o teu sangue ardeu dentro do peito
e em que viste florir brejos     desertos.

Quanto tremor exigem as palavras
às vezes tão vulgares de simpleza
para serem com laços acendradas
e para terem voz de limpidez.

Se o campo for hostil e pouca a água
não forces por inútil o silêncio
mas faz agir as tuas mãos contritas.

E é na certeza que o vivaz milagre
irá acontecer: os regos densos
de fluidez e a terra a produzir.

António Salvado, Repor a luz.






Quinta do Rossio





domingo, 14 de fevereiro de 2021

Narciso

 Narciso. Floresce normalmente no período do Inverno e da Primavera. (Foto - Qta do Rossio)


Narciso
Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho: 
Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
... Lá no fundo do poço em que me espelho! 
José Régio

segunda-feira, 30 de março de 2020

Primavera, flores e poesia...



Fotos - Qta do Rossio





















a jardineira

não sei como ela sabe o que está certo
para o jardim nas estações do ano,
e compra bolbos numa inglesa, perto
de nossa casa, e vai fazendo o plano

de caminhos, canteiros, trepadeiras
e arbustos que esqueci, tufos de hortênsias,
renques de rosas, fúcsias, japoneiras,
vermelho, branco, azul, lilás, violências

da túlipa amarela, e nesse reino,
de sapatos de ténis e de luvas,
chapéu de palha e fato gris de treino,
vai governando aos ventos, sóis e chuvas,

e põe junto às sementes, pá na mão,
ao pé da expectativa do coração.


Vasco Graça Moura, Poesia 1963-1995, p. 443































Voltas a mote alheio

Verdes são os campos
Da cor do limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.


Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gado que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões, Lírica, p.107


quinta-feira, 15 de agosto de 2019

A nossa Vizinha

 
 Capela de Nossa Senhora do Miradouro

"Segundo a população a capela é talvez o monumento mais antigo de São Miguel de Acha, a imagem da Nossa Senhora do Miradouro é, dos finais do século XIV. Esta Capela é feita de granito escuro e a sua construção é do século XVII, na sua frente tem um vistoso alpendre, que serve de protecção para os fiéis." (Daqui)


Hoje é o dia da nossa Vizinha, como dizia a minha mãe.