sexta-feira, 1 de março de 2024

Meditar à minha maneira



Cada um de nós pode encontrar a sua maneira de meditar. Às vezes a solução está debaixo dos nossos olhos e nem sempre nos apercebemos de que essa é uma forma de meditação excelente para nós.

Por esta altura da Quaresma acontecem actividades várias um pouco por todo o País  que outra coisa não são que formas de meditação profunda. 

Na nossa cultura, o tempo pede essa reflexão sobre nós próprios, requer a concentração na vida efémera, no sofrimento que nos atormenta mas, por mais atroz que possa ser, também se oferece como forma de superação.

Este é o tempo, quando pensamos nesta vida, que nos traz momentos de felicidade mas que nos alerta para todo o background que marca a nossa existência, a começar pelo sofrimento psíquico, medo, tristeza, stress,  irritações e injustiças...

 

Então é possível procurar momentos de serenidade,  paz,  segurança, o conforto comigo próprio, que se não for felicidade não deixa de ser um estado verdadeiramente tranquilo em que "nada me perturba, nada me espanta" (Sta Teresa D' Ávila), nada interfere na minha vida .  

Os benefícios da meditação são verificáveis na medida em que as pessoas que a praticam são mais felizes e vivem mais satisfeitas do que a média. E isto é muito importante para a sua saúde:

- Reduz as perturbações  mentais como a ansiedade, a depressão e a irritabilidade

- Melhora as relações interpessoais

- Ajuda no impacto que podem ter doenças graves na nossa vida como a dor crónica... etc.

 

É necessário desfazer alguns mitos:

- A meditação não é uma religião embora muitas pessoas que a praticam possam ser  religiosas.

- Podemos meditar em qualquer lado e em qualquer posição. Para praticar, não é necessário sentar-se numa posição especial ou respirar de maneira específica.

- E, muito importante, “a meditação não é  aceitar o inaceitável. É ver o mundo com maior clareza permitindo-lhe agir de forma mais sábia e fundamentada e mudar aquilo que precisa de ser mudado.”(Williams, M. e Penman, D. - Mindfulness - Atenção plena, Lua de papel, p.16)

 

A “Ladainha” e o “Terço cantado” são manifestações de meditação que se realizam em S. Miguel d’ Acha e que são levadas a efeito todas as 5.as e 6.as feiras da Quaresma.

Rezar e meditar não são a mesma coisa mas têm uma ligação muito forte, podendo até ser assimiladas uma à outra.

Podemos dar a esta forma de meditar a designação de Meditação  guiada ou Meditação cantada. O mantra “Rogai por nós” ou a repetição do "Pai nosso", p.ex., levam-nos, como refere John Main, para “um modo de oração profunda que nos encaminhará para a experiência da união, longe das distracções superficiais e da autocomiseração.“

 

“O fundamental é exercitar a focalização da mente num ponto, num objeto, pensamento ou atividade em particular, visando alcançar um estado de clareza mental e emocional.“  (Meditação cristã: como surgiu e como praticar)

Como tal, também o fundamento da meditação cristã é contemplar diferentes aspectos da vida de um Ser exemplar que se oferece como modelo para a nossa vida. 

Esta possibilidade está à disposição de quem quiser meditar durante 30 minutos às 5.as feiras e durante uma 1H30 às 6.as feiras durante o tempo da Quaresma.

 

 

Até para a semana.

 




 

domingo, 26 de novembro de 2023

Da Arte e das Tradições que nos pacificam



Um fim de semana extraordinário (11-12 de Novembro de 2023). A música foi o principal elemento agregador de todas as vontades participantes nos eventos culturais e artísticos deste fim de semana, em S. Miguel d'Acha, uma pequena vila da Beira Baixa onde todos, ou quase, sabem cantar bem, vem de nascença, que se traduz, entre outras manifestações, no Grupo de Cantares Tradicionais da Associação para a Defesa do Património Cultural (ADEPAC).
S. Miguel pode orgulhar-se, mais uma vez, de ter uma iniciativa cultural de tão elevada qualidade.

No sábado, pelas 11H00, teve lugar  a apresentação do Cancioneiro da Música Tradicional de S. Miguel d'Acha, da autoria de Joaquim Gonçalves e José Ramos Alexandre. A história da música popular de S. Miguel d'Acha e o acervo das músicas populares originárias e cantadas nesta terra. Uma obra de fôlego. Uma obra que preserva a memória do passado e, em muito, ainda a memória do presente porque viva continua a ser a manutenção das tradições em que estes cantos são o centro desses enventos tradicionais mas que sem ela, necessariamente (?) tudo parece levar a crer que assim seja, corria o risco de se perder, pelo menos em boa parte.
Com a publicação do Cancioneiro hoje podemos ter a certeza de que esta herança, o património imaterial desta comunidade, está aí para os nossos netos, obra que os faz e fará ter orgulho dos seus antepassados que criaram estas melodias emocionantes e únicas, fruto das suas vivências de infância, de trabalho, das festas ou da religiosidade. Mérito dos autores do Cancioneiro.


À noite, assistimos ao concerto "A música Tradicional em S . Miguel de Acha". 
"O programa deste concerto, organizado pela ADEPAC, no âmbito lançamento do Cancioneiro da Música Tradicional de São Miguel d'Acha tem em vista a apresentação ao público de algumas das modas da nossa terra. Muitas delas são, aliás, frequentemente cantados e difundidas pelo Grupo de Cantares Tradicionais de São Miguel de Acha, mas outras foram sendo musicalmente trabalhadas por vários autores.

Daí que a escolha e ordenação do programa tenha recaído em canções cujas melodias e temas já foram objeto de elaboração e tratamento musical, nas variadas perspectivas encontradas, por forma a que com esta metodologia de apresentação, o público possa perceber as muitas abordagens musicais possíveis sobre temas idênticos e verificar que a música tradicional é passível de merecer a mesma consideração que a chamada música erudita.

Assim, incluem-se, desde logo, arranjos de Fernando Lopes Graça (para piano solo, piano quatro mãos, canto e piano, vozes e orquestra) de algumas modas que ele próprio recolheu na nossa terra, arranjos de Jorge Croner de Vasconcelos (para canto e piano, de duas modas anteriormente também aqui recolhidas por Constantino Varela Cid), bem como vários arranjos de um conterrâneo nosso, Joaquim Gonçalves (para vozes e piano e/ou instrumentos) e de seu filho Diogo Gonçalves (canto e piano e vozes e instrumentos), de canções igualmente recolhidas em  S. Miguel.

E tendo em vista a consecução destes objetivos, o Programa executado por conhecidos e credenciados intérpretes nacionais (um conjunto vocal de vozes iguais, a soprano Maria João Sousa, os pianistas Leonor Cardoso e Paulo Oliveira, um ensemble instrumental - sopro e cordas), além do Grupo de Cantares Tradicionais de S. Miguel de acha, de ACEPAC, também sobejamente reconhecido no âmbito dos executantes de música tradicional na região das Beiras, atualmente dirigido por Eduardo Gonçalves.

Por fim, é devida uma palavra de agradecimento à Paróquia de São Miguel de Acha, na pessoa do P. Martinho Lopes Mendonça, pela disponibilidade manifestada para a realização deste Concerto na Igreja Matriz de São Miguel de Acha."

A missa de domingo foi manifestação de elevada espiritualidade em que Bach e Schubert nos ajudaram a sentir toda a felicidade que pode resultar na nossa mente e no nosso coração quando à meditação, celebração, e pedido de um mundo melhor, podemos acrescentar o extraordinário engenho humano criador desta música.

Gratidão enorme por nos terem proporcionado estes momentos. Por este tempo em que, afinal, acontecem milagres que vêm da Arte e da Paz. Podemos sonhar com um mundo civilizado em que a Arte nos reuna como pessoas interessadas na Cultura e na Paz. Podemos presenciar a diversidade das pessoas na diversidade das interpretações e como a música pode ser extraordinária quando essa mesma música é tocada e cantada pelo Grupo de Cantares, pela orquestra ou apenas pelo piano numa continuidade de profundidade emocionante entre a "Encomendação das almas", canto por vozes femininas, e os "Martírios", com piano a quatro mãos com Leonor Cardoso e Paulo Oliveira e arranjo de F. Lopes-Graça.

Este momento inesquecível ficou a dever-se à ADEPAC, a todos os patrocinadores, a todos os que colaboraram, a todos que gostam desta terra tão querida e maravilhosa. Tantos amigos. Tão boa gente. Uma Arte que enleva o espírito e pacifica a mente foi o que senti neste fim de semana, na minha terra, S. Miguel d'Acha.




quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Beirã




Quero ir à tua terra, beirã
Onde correm fios de água
Entre goivos e hortelã
Ensina-me a distinguir
O melro da cotovia
Nunca soube o que era ouvir
O galo a anunciar o dia

Tília trevo e açafrão
Erva pura pimentão
Louro salsa e cidreira
Urze brava e dormideira

Vou pedir para me levares
Ao teu mais secreto atalho
Para lá de hortas e pomares
Entre pólen e orvalho

Revela-me os teus segredos
As geleias e os licores
Quero contigo aprender
Cheiros ervas e flores

Tília trevo e açafrão
Erva pura pimentão
Louro salsa e cidreira
Urze brava e dormideira

Vai fiando a tua roca
De adágios e tecidos
Quero ouvir da tua boca
Os assombros mais antigos

Sou um pobre cidadão
Perdi o fio de mim
Um bichinho do betão
Que nunca viu o alecrim

Tília trevo e açafrão
Erva pura pimentão
Louro salsa e cidreira
Urze brava e dormideira

Carlos Tê/Rui Veloso


quarta-feira, 29 de março de 2023

sábado, 7 de janeiro de 2023

A minha Varykino


Qta do Rossio, S. Miguel d'Acha


Varykino. Jivago tem agora tempo para se dedicar a escrever algumas notas sobre assuntos vários.

"Que felicidade esta de trabalharmos para nós mesmos e para os nossos, da manhã até à noite, de construirmos um abrigo, de cultivarmos a terra para dela tiramos as nossas subsistências, identificar o nosso próprio mundo, como Robinson, de imitarmos Deus criador do Universo, e de renascermos, de nos renovarmos em cada hora que passa, como um filho que acaba de sair das entranhas da mãe. 
Quantos pensamentos, quantas novas reflexões surgem no espírito enquanto as mãos estão ocupadas no trabalho físico, muscular, de cavar a terra ou de pregar um prego: ou então, quando decidimos tarefas razoáveis, de fácil solução que nos enchem de alegria e de orgulho; e ainda: quando num trabalho ininterrupto de seis horas conseguimos reduzir a vigamento um possante tronco de árvore ou, sob um céu nu que nos queima com seu hálito benfazejo, cavamos a terra… E mesmo que esses pensamentos, essas intuições, essas metáforas não sejam logo  transportas para o papel e, porque fugazes, sejam esquecidas, não constituiu isso uma perda mas antes houve um ganho. E tu, anacoreta da cidade, obrigado chicotear tua imaginação e teus nervos enfraquecidos com o tabaco e o café forte e negro, tu ignoras o mais poderoso de todos os narcóticos: a necessidade real e uma saúde de ferro. 
Não pretendo ir mais longe, não proponho nem a renúncia de Tolstoi nem o regresso à terra, não penso mesmo em corrigir o socialismo graças a uma nova solução do problema agrário. Verifico apenas um facto sem pretender erigir em sistema aquilo que me aconteceu a mim. O exemplo de cada um de nós é sempre discutível e não permite que tiremos conclusões de ordem geral. A nossa vida material é feita de elementos muito diversos. Só uma parte reduzidíssima da nossa subsistência - os legumes e as batatas - provém do trabalho das nossas mãos. O  resto promana de outras fontes." (p. 299-300)

Sempre que regresso a S. Miguel, penso em Varykino, descrito por Jivago, descrito por Boris Pasternak. O branco da neve pelo verde da erva. De resto, o mesmo sentimento.











sábado, 17 de setembro de 2022

Lendas e Contos da Aldeia


"No dia 17 de setembro de 2022, pelas 20,30 H, na sede da ADEPAC – Largo de Sto. António, São Miguel de Acha, Fábio Superbi, narrador e pesquisador, vai ser protagonista de uma tertúlia, “Lendas e Contos na Aldeia”.

“Lendas e Contos da Aldeia”, tem por base, livros de autores (septuagenários) filhos da aldeia, como, António Milheiro, Joaquim Folgado Rascão, João Coelho Milheiro, João Alberto Bentes, Carlos Teixeira e outros como por exemplo a jovem poetisa Carina Anselmo.

Estas tertúlias culturais permitirão dar voz as histórias e tradições presentes em S. Miguel de Acha ao longo de gerações. Fábio Superbi, após pesquisa e leitura atenta das obras, fará serões com base em alguns contos dos livros citados e outras histórias recolhidas pela aldeia. Atuará igualmente na qualidade de mediador junto do público, interagindo e convidando todos os que queiram comentar e partilhar as suas histórias.

Deixe-se embalar por este movimento e participe nesta e noutras tertúlias que vamos organizar."